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Ventania
Era chamada de lixeira. Guardava todas as cartas que escrevia para não entregar, os papéis de balas que sonhava ganhar das pessoas que gostava só de longe, as pétalas das flores que gostaria de ter recebido. Era engraçadinho, era coisa de criança. Volta e meia a mãe, que ali só via lixo, fazia a limpa no guarda-roupa. E no dia seguinte tinha uma menina chorando. É pra não vir barata, filha. Mas essas coisas me são tão caras, mãe… E todos na casa riam do apego da pequena às coisas ainda menores do que ela. E a pequena moça guardava tudo. Era quase que uma colecionadora de afetos. Sim, eram afetos, por mais que se vestissem de papéis ou de lixo. E tinha também os afetos mais descarados. Por exemplo, ela guardava palavras. Pensava muito e dizia pouco. Tinha um olhar tagarela, mas tentava condicioná-lo a certa discrição. É uma menina insegura, coitada, diziam alguns. Mas talvez ela fosse mesmo era egoísta. Tinha medo de que os seus afetos se gastassem, medo de perder momentos bons e importantes, medo de perder os seus gostos. E daí ela preferia guardar as coisas para si, para que estas não lhe fugissem. Na verdade guardar tranqueiras era mesmo um modo de não se perder de si mesma. Era moça esperta e sabia que somos seres em constante transformação. Mas seu narcisismo a deixava rígida, querendo viver contra o tempo. E guardava. E se guardava. Quase não se mexia. E a vida mais lhe passava em fantasia e não-quereres, do que em vôos e tombos. Tudo mornamente calculado, pra não gelar e nem queimar.
Eis que um dia a menina virou mulher, e ela era uma mulher perfeita, quase um robô. Não despertava desejo em quem a via. Na verdade as pessoas sequer a viam. E ela mesma tinha adormecido os seus próprios desejos, após toda uma vida de prática em amortecer olhares, anestesiar quereres e fingir não poderes. Um dia a mulher, que era muito bem arrumada, muito bem-educada, e muito bem-sucedida, saiu de casa para trabalhar, toda pontual. Foi aí que começou a sentir uma ventania. Mas não era um vento normal. De repente mais parecia que o seu corpo não tinha fim. Mais parecia que a sua pele não marcava a o limite entre o seu interior e o seu exterior. Mais parecia é que não tinha pele. E também que não tinha carne. E nem ossos. As árvores balançavam, as folhas caíam, o seu cabelo despenteava todo. Sentia um frio gostoso na alma, era o vento que a cortava. Puta que o pariu, que sensação boa. A mulher perfeita falou em voz alta, e deixou de ser perfeita. E se assustou com o palavrão que pulava da sua boca. Era bom falar palavrão porque fazia um tanto de cócegas no céu da boca, misturada com um quê de dor de existir. Era bonito falar palavrão! As palavrinhas e os palavrões tinham gosto de mofo e cheiro de poeira, depois de tantos anos de guarda-roupa. E sentia que os seus lábios puxavam-se para os lados, num sorriso tolo. E fora invadida por um brilho horrivelmente prazeroso nos olhos. Cada vez mais esquisita. À medida que os cabelos eram despenteados, despenteavam-se também os seus pensamentos. E a sua temperatura que sempre fora morna, de repente mais parecia um cubo de gelo que queimava.
Ao olhar pro lado viu todas as coisas da sua caixa, voando e misturando-se ao vento. Papéis de bala valsavam com as folhas das árvores, afetos pingavam como sereno, palavras cantavam a música do vento. Toda a sua coleção de afetos guardados por anos a fio, desfilava fazendo coreografias no ar. Então pensou que talvez tivesse guardado todas aquelas coisas simplesmente para assistir ao seu próprio desfile naquele momento. Fazia strip-tease da alma. Sorte de quem assistia .
*Recebi esse texto da grande amiga Danny Penafiel. Sua astróloga enviou para as virginianas e para as piscianas, ou seja nós.




